Jornal da SBOT entrevista o consultor Napoleão Puente de Salles

//Jornal da SBOT entrevista o consultor Napoleão Puente de Salles

O Jornal da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot), na edição de setembro e outubro de 2016, apresenta entrevista com o consultor em Relações Governamentais, Napoleão Puente de Salles. Confira a íntegra da entrevista:

Jornal da SBOT: As pessoas em geral, e os médicos em particular, sempre tiveram uma certa resistência em se envolver com a política e com os políticos. Você acredita que é papel do médico envolver-se com o que acontece no Congresso Nacional — ou basta votar direito?

Napoleão Puente de Salles: O médico é um atuante membro em nossa sociedade, seja nos grandes ou nos pequenos centros do país. É um importante formador de opinião em qualquer meio em que esteja. Então, é fundamental que o médico entre e se engaje na política. Não é necessário que se envolva partidariamente, mas é preciso atuar politicamente pela saúde do brasileiro. Se a saúde for bem, o médico vai bem e o cidadão também vai bem. Então, não basta só votar direito. Na minha opinião, o médico tem o papel de despertar nos seus pacientes o interesse pela política e orientá-lo sobre como votar de forma consciente. Não precisa falar em sigla partidária. Não há nada de antiético em conversar sobre política, esclarecer as pessoas e enfatizar a importância de escolher o candidato de forma consciente. De fato, o médico tem uma certa dificuldade para se envolver de forma significativa com a política e com o Congresso. Há mais de 10 anos, temos trabalhado para superar essa dificuldade, convencendo o médico de que ele precisa estar presente no parlamento. A situação do Sistema Único de Saúde (SUS), as condições de trabalho nos hospitais e a atividade no consultório, por exemplo, só vão melhorar se ele efetivamente pressionar os Poderes Legislativo e Executivo.

Entrevista SBOT - 1Jornal da SBOT: A ideia de uma maior participação política tem amadurecido na SBOT, e culminou na criação da Frente Parlamentar da Medicina. Na sua opinião, além da atuação do CFM e da AMB, seria importante que as especialidades médicas também atuassem?

Napoleão: É muito importante a participação de todos os segmentos organizados da sociedade dentro do Congresso Nacional. O parlamento, como se sabe, só funciona com pressão. Não é só no Brasil, mas em todo o mundo. Não falamos aqui em política partidária, em partido A, B, ou C, mas na política de defender pautas legítimas junto ao parlamento. A SBOT só vai conseguir alcançar melhores condições de trabalho, com hospitais que ofereçam condições e equipamentos que funcionem, se ela como sociedade organizada demonstrar o caos da saúde brasileira aos integrantes do Legislativo e do Executivo. Então, a participação da SBOT é muito importante, juntamente com outras entidades médicas e, lógico, com as entidades-mães nacionais, que são a Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina, nesse trabalho de convencimento.

Jornal da SBOT: Como você definiria o seu trabalho para o associado SBOT? Qual o objetivo principal ou meta de sua atuação perante a SBOT?

Napoleão: O que proponho é um trabalho organizado, como se faz em qualquer lugar do mundo, com levantamento e acompanhamento de todos os projetos da área da saúde que podem influenciar positivamente ou negativamente a atividade da SBOT. A atuação é desenvolvida de forma a melhorar a atividade do médico ortopedista e traumatologista e, consequentemente, a saúde do cidadão brasileiro, que é o bem maior. Somos uma ferramenta para a SBOT. Uma ferramenta para levar a SBOT até as pessoas que efetivamente decidem no Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados tem 513 deputados e o Senado, 81 senadores. É impossível para qualquer segmento da sociedade trabalhar com todos os 513 deputados ou os 81 senadores. Por outro lado, é perfeitamente possível ter acesso aos líderes, como se faz o acompanhamento parlamentar em qualquer lugar do mundo. Assim como existem líderes no plenário da Câmara e do Senado, existem os líderes nas comissões de cada Casa. As comissões são a alma do parlamento, onde os projetos são debatidos, avaliados e alterados, se necessário. Tudo é resolvido nas comissões. Quando o parlamentar coloca o pé no plenário, ele já está decidido sobre como vai votar. Os discursos em plenário não mudam voto, servem apenas para o parlamentar dar satisfação à sociedade, dizer por que está votando a favor ou contra determinada proposta. É na comissão que os parlamentares podem ser convencidos a rejeitar, aprovar ou substituir um projeto. É lá que temos que atuar, conhecendo quem são os líderes nas comissões. Na Câmara dos Deputados, a Comissão de Seguridade Social e Família é a mais importante, onde sempre será analisado o mérito das propostas das áreas médica e de saúde. No Senado, a Comissão de Assuntos Sociais é a principal para essas áreas e também sempre vai analisar o mérito do projeto. Por isso, temos que saber quem são os parlamentares que lideram dentro das comissões. São esses parlamentares que devem estar no foco principal. Por exemplo, em um projeto que influencia a atividade de ortopedistas e traumatologistas, quem vai ser o relator? É prerrogativa do presidente da comissão indicar o deputado responsável pela relatoria do projeto. Indicado o relator, temos que procurá-lo, levar a ele as preocupações da SBOT, se são positivas ou negativas em relação àquela proposição, e tentar encaminhá-las de acordo com o que é melhor para a saúde e para a sociedade. Esse é o trabalho parlamentar pelo qual sou responsável. Será imprescindível que a SBOT esteja junto no parlamento. Em determinados momentos, presidente, diretores e membros terão que estar no Congresso Nacional para fortalecer suas demandas e convencer os parlamentares.

Entrevista dr. Napoleão (1)-2Jornal da SBOT: Quais outras especialidades médicas já estão se preocupando com sua atuação no Congresso?

Napoleão: Assim como a SBOT, nós temos outras especialidades também com um trabalho consistente no parlamento. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia, atuante na defesa dos oftalmologistas brasileiros, o Conselho Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, que defende os radiologistas brasileiros, são exemplos que eu conheço de entidades médicas com uma sólida atuação no parlamento nacional. Além disso, é claro, temos as entidades-mães: Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina, que trabalham com dedicação em defesa dos interesses da saúde brasileira. O que pode mudar é algum assunto específico que seja diferente de uma entidade para outra. A atuação estruturada, no entanto, é semelhante, com o trabalho nas comissões, com o relator e com os integrantes da comissão e com audiências públicas para defender um tema de interesse da categoria.

Jornal da SBOT: Podemos chamar o seu serviço de “lobby”? É o mesmo que o “lobby” norte-americano? Se não, qual a diferença?

Napoleão: Em uma sociedade democrática, qualquer cidadão ou organização tem o direito de defender seus direitos legítimos, levando demandas e argumentos aos parlamentares e ao governo. Esse é o significado de lobby. Então, sem dúvida, é o que fazemos no Congresso Nacional. É a defesa dos direitos da saúde e da sociedade. É a defesa dos direitos dos trabalhadores da Medicina, através do trabalho do Conselho Federal de Medicina, da Associação Médica Brasileira e de suas sociedades de especialidades, entre as quais está a SBOT. Nos Estados Unidos, lobby é um direito protegido pela Constituição. A Associação Médica Americana, inclusive, é a mais antiga entidade organizada da sociedade americana a praticar e trabalhar com lobby no Congresso de lá. Fazem um excelente trabalho, que é exemplo para o resto dos parlamentos no mundo todo. A gente deve se espelhar no lobby norte-americano, inclusive na atuação da Associação Médica Americana. Tenho informações que a entidade equivalente à SBOT nos Estados Unidos também tem um segmento muito forte de lobby no Congresso norte-americano. A SBOT já esteve nos EUA, visitou a sociedade americana e já teve intercâmbio de informações sobre como é a atuação lá e como pode ser adaptada para o trabalho junto ao Congresso Brasileiro. No Brasil, lobby se tornou uma palavra pejorativa nos últimos anos, mas agora o Congresso brasileiro está debatendo projetos para regulamentar no país, de forma a garantir a necessária transparência dela em relações governamentais.

Entrevista dr. Napoleão (1)-3Jornal da SBOT: Temos aproximadamente dois anos até a próxima eleição para deputados e senadores. O vínculo ou os diálogos que se criam com os atuais parlamentares se perdem com a mudança dos integrantes do congresso?

Napoleão: Historicamente, o Congresso brasileiro tem 50% de renovação. Na última eleição, esse percentual foi de 44%. Em razão da crise política e ética que atualmente enfrentamos no país, é possível que tenhamos um índice um pouco maior de renovação na próxima eleição. Mas os parlamentares que efetivamente trabalham em prol da saúde e da Medicina geralmente têm maior estabilidade em sua votação, defendendo a saúde junto a suas bases eleitorais. Essa questão da renovação do parlamento, no entanto, não é decisiva para o trabalho no Congresso. A maneira de defender os interesses da SBOT é a mesma, com parlamento renovado ou não.

Jornal da SBOT: Você acha que médicos que se envolvem na política, candidatando-se e sendo eleitos para cargos no Executivo e no Legislativo, têm melhores condições de lutar pela melhoria da Saúde do que não médicos?

Napoleão: Sempre é importante ter uma bancada forte de parlamentares envolvidos com a causa da saúde, pois é uma questão de fundamental importância para a sociedade. No Brasil, atualmente as principais preocupações das pessoas são saúde, segurança e emprego. Pesquisas de opinião realizadas nas capitais nesta eleição, por exemplo, mostraram que a saúde era o problema mais lembrado em todas as regiões do país. Então, precisamos ter uma bancada forte em defesa da saúde e, obviamente, em defesa do médico. Mas, no meu entendimento, boas condições da saúde e de trabalho ao médico brasileiro não dependem diretamente do número de médicos eleitos. Já tivemos 62 deputados médicos na eleição de oito anos atrás. Agora, são em torno de 42. Se as reivindicações e argumentações forem legítimas, os parlamentares apoiarão. Saúde é preocupação principal da sociedade e, portanto, um tema muito sensível para o convencimento de deputados e senadores. E esse convencimento pode ser tanto para que se aprove um projeto de interesse ou para que não se aprove determinada proposta, pois às vezes há projetos na área da saúde que não são interessantes. Podemos dizer que, com certeza, é interessante ter médicos no parlamento, mas não é exclusivamente isso que fará com que a saúde e o trabalho dos médicos tenham melhores condições. O que pode de fato melhorar é o trabalho de convencimento de que o tema saúde é legítimo e que a sociedade brasileira é carente de saúde.

Jornal da SBOT: Quais as peculiaridades de trabalhar com ortopedistas?

Napoleão: O que me atrai neste novo desafio com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia é exatamente a organização da SBOT. É uma entidade com a administração organizada, com diretoria, núcleos e um organograma de organização estruturado. Conforme estive conversando com o presidente e com os diretores, a SBOT nunca teve uma assessoria parlamentar no Congresso Nacional. Somos os primeiros a assessorar a SBOT no parlamento e entendemos que bons frutos serão colhidos nesta parceria que estamos iniciando.

Jornal da SBOT: Como e por que um administrador se envolveu com política? Qual é a sua traEntrevista dr. Napoleão (1)-4jetória?

Napoleão: Minha formação profissional é administrador de empresas. Não existe, porém, uma universidade, uma pós-graduação ou um mestrado para se conhecer como funciona o dia a dia do parlamento. A única maneira de se aprender a trabalhar no parlamento é o tempo, conhecendo dia a dia, mês a mês e ano a ano as peculiaridades da atividade parlamentar. Comecei meu trabalho em 1986, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, e em 19
91 vim chefiar o gabinete de um deputado federal em Brasília. Fiquei quatro anos na Câmara dos Deputados e, a partir daí, criei minha empresa de consultoria, a NK Consultores, na qual estou trabalhando até hoje. É importante destacar que o envolvimento com o parlamento não é partidário. A consultoria parlamentar não trabalha com bandeiras políticas ou partidos. Trabalhamos com parlamentares. No momento em que ele está relatando um projeto, não nos interessa se é do partido A, B ou C. Não conta a nossa ideologia interna, isso fica separado da nossa atividade. O que nos interessa é defender as demandas legítimas que ajudem a desenvolver a atividade do médico e, consequentemente, melhorar a saúde.

Jornal da SBOT: Qual o futuro da Frente Parlamentar da Medicina?

Napoleão: A Frente Parlamentar da Medicina, atualmente, é uma ideia em desenvolvimento. São várias entidades nacionais: Conselho Federal de Medicina, Associação Médica Brasileira, sociedades de especialidades, entre as quais a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia é uma das que está liderando esse processo. Temos que destacar alguns pontos importantes em relação ao trabalho de uma frente parlamentar. Na presente legislatura, já foram criadas ou renovadas, somente na Câmara dos Deputados, o total de 245 frentes parlamentares. Ou seja, podemos perceber que as frentes parlamentares têm uma grande divisão de temas. Agora, está se pensando em criar a Frente Parlamentar da Medicina. Como destaquei anteriormente, temos 42 parlamentares que são médicos. Não tenho dúvida de que a Frente será criada, mas será preciso cuidado para não inverter o polo das demandas. O médico tem que ter em mente, o associado da SBOT precisa estar ciente de que não é a Frente Parlamentar da Medicina que irá apresentar demandas e questionamentos a ele. É o médico quem vai ter que demandar a Frente Parlamentar da Medicina, levando até esse grupo de parlamentares as questões que afligem a atuação médica em nosso país. Se ele não apresentar as demandas ao parlamento, a frente não vai funcionar. Os parlamentares tem diversos assuntos para tratar no dia a dia e, por isso, não ficarão solicitando informações aos médicos sobre um ou outro projeto. Será papel da SBOT e outras especialidades médicas, juntamente com a Associação Médica Brasileira e, o Conselho Federal de Medicina, defender suas causas junto à Frente Parlamentar da Medicina.

 

 

No comments yet.

Leave a comment

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.